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Upcycling – Tendência que é urgência

Transformação criativa

Upcycling é o parente rico da reciclagem. Enquanto esta, a reciclagem, transforma matérias usadas, produtos inúteis, desperdícios de consumo, resíduos e subprodutos em novos materiais ou os renova – transformando plástico em novas versões de plástico, por exemplo –, o upcycling faz a reutilização criativa, por vezes mesmo artística dos materiais tais como os encontra, acrescentando-lhes uma nova visão ou propósito e, com isso, somando-lhes valor, desde logo um acrescido valor ambiental. Enquanto a reciclagem é um processo, muitas vezes, industrial, o upcycling depende apenas de um novo e fresco olhar, capaz de vislumbrar potencial e riqueza num objeto descartado, muitas vezes resgatado no lixo. Por isso, um bom termo para aportuguesar o anglicanismo upcycling seja o inventivo ‘recriutilização’. Chamamos-lhe parente rico da reciclagem por ser mais criativo e mais amigo do ambiente, já que dispensa, na sua essência, gastos e transformações fabris para se reinventar e nascer de novo aos olhos de todos.

Um parente rico, desafetado e capaz de tudo olhar com a novidade do primeiro olhar. Uma entidade capaz de encontrar beleza, préstimo e valor em objetos e materiais antigos, já usados, ou desusados, ainda que em diferentes contextos e em novas narrativas estéticas. Pelo caminho, economiza desperdícios e matérias-primas, os quais resultariam e seriam necessárias, respetivamente, para a obtenção de novos produtos, já que emprega ‘restos’ de outras eras e de outras necessidades para gerar o novo. Daí resulta uma poupança gigantesca em consumo energético, desgaste do planeta e poluentes gerados que deve ser valorizada, senão mesmo acarinhada. É a capacidade de dar nova vida a coisas que já não se utilizam ou usam, de aproveitar o valor do material em nome de uma nova peça que dele se consiga fazer nascer, é permitir nova esperança e dar nova oportunidade a objetos relegados para segundo plano ou mesmo atirados para o lixo. Uma perspetiva inovadora que é bandeira de movimentos como o slow fashion ou o espírito maker, em que se metem mãos à obra com vista à transformação de objetos, mas, acima de tudo, com o propósito de revolucionar modos de ver, fazer, pensar e viver e, com isso, transformar a sociedade, renovar o mundo.

Usar sem deitar fora

Este procedimento coloca ainda em perspetiva o modo como fazemos as coisas num universo em que tudo é temporário e altamente descartável, incluindo os humanos logo que uma nova moda surge ou a juventude se esvai. O princípio é o mesmo dos nossos avós, que dos vestidos das mães faziam roupa nova e reabilitavam uma bicicleta velha transformando-a numa nova em folha. Claro que dá trabalho. Implica tempo, engenho e criatividade. Exige dedicação e paciência. Claro que o pronto-a-vestir e a publicidade nos ensinam que se deve renovar o guarda-roupa a cada seis meses e que o novo é que é bom. Nem sequer é verdade. O novo tende a ser de qualidade cada vez mais inferior e o volume de produção que tal exige resvala negligente e grosseiramente para o trabalho infantil em países pobres, que ficam longe da nossa vista de cada vez que deitamos roupa que mal se usou no lixo ou apenas se acha que após algum tempo um artigo está démodé. Démodé estamos nós. Mais do que isso, está ultrapassada esta forma de ver o mundo, um mundo que vai sofrendo a cada nova peça de roupa que é fiada, fabricada, tingida, transportada e vendida. Por cada bicicleta que não se pinta ou reabilita, por cada móvel que vai fora, largado no passeio, para abate.

Exercitar o olhar e a mente

A artista Joana Vasconcelos olha para tampões e tampas de tachos e vê candelabros e sapatos. Bordalo II olha para lixo urbano e vê todos os animais do planeta. Eles são alguns dos nomes nacionais mais gritantes do upcycling artístico, ainda que as obras da primeira empreguem materiais novos, o seu já vasto acervo permite desmontar e ilustrar a mecânica do novo olhar de que aqui falamos. Já Bordalo II é um verdadeiro mago do upcycling. Como ninguém, do lixo ele faz luxo. Do velho faz novo. Do inútil cria arte. Arte urbana, o que valoriza ainda mais o ciclo do reaproveitamento, que se fecha num círculo perfeito e no qual pulsa um coração que bate a compasso com a urgência de repensar os nossos sôfregos hábitos de consumo. O upcycling é, assim, a base da tão falada economia circular, de desperdício zero e de produção controlada, em que o novo emerge do velho, em que novos produtos e artigos resultam de resíduos ou produtos pré-existentes. É ainda uma premissa fulcral ao pensamento ecológico, de preservação de recursos e de controlo de produção em excesso. Cansa-se o planeta e cansa-se o Homem, na falsa urgência de consumir mais e mais e mais e sempre mais.

Uma necessidade sintética criada em laboratórios de marketing e publicidade que viciou o já pernicioso jogo do consumo. Ontem, os objetos eram feitos para durar uma vida, pois isso se lhes exigia. Uma cama passava de geração em geração, porque tinha qualidade suficiente para enfrentar futuros infinitos. Hoje, tudo é feito de raiz para não durar mais do que uma temporada, sem possibilidade de reparação, já que o pretendido é que logo, logo se compre uma coisa nova, de linhas mais modernas, que cumpra a mesma função, de preferência durante ainda menos tempo, pois na forja estão já novidades fresquinhas do design que todos quereremos acompanhar. Hoje, até as casas saem de moda. O próprio ser humano parece já arcaico, há que inventar novos e melhores modelos de terráqueos, capazes de consumir a um ritmo ainda mais acelerado, para que se possa criar e fabricar e consumir num ritmo mais adequado à economia e mais favorável aos acionistas. Hoje tudo tem acionistas que exigem sempre mais. Mais de qualquer coisa. O que quer que seja, mas mais, por favor.

Marte tem de esperar

Nesta louca espiral em que nós – no insano papel de Alice no País das Tecnologias – caímos diariamente, há focos de luz, de pensamento razoável, que não apenas alertam para a necessidade de refrear como dão pistas e lideram o caminho mostrando como fazem, como todos podemos fazer, como, no fundo, temos de fazer. Já não apenas em nome do planeta, essa entidade que todos consideramos distante, mas que vive no meio de nós, mas em nome da nossa existência. Se queremos continuar a manter provável vida no nosso planeta, temos de o respeitar, já que Marte, para já, não oferece garantias de felicidade, nem se deve deixar enganar tão drasticamente como a Terra.

O velho é o novo… novo

Na decoração de interiores, este conceito é deveras enriquecedor, na medida em que nos dá a possibilidade de ‘fulanizar’ as nossas casas. De as tornar ainda mais pessoais e únicas, seja pela reinvenção de peças herdadas a que se quer dar nova entidade, seja na reabilitação de memórias que se querem preservar, mas que se agarram a objetos envelhecidos e que já não fazem jus aos seus anos de glória. Pela mão do upcycling, tudo é possível. Tudo mesmo. Uma nova geração maker, protagonizada pelos ditos millennials e já centennials, com princípios de salvaguarda ecológica e vontade efetiva de cortar com filosofias despesistas, galvaniza este princípio de recuperação, de revalidação e transformação manual de objetos. Eles são poetas e inventores, talvez à força das consecutivas crises económicas que embalaram os seus anos de maior desenvolvimento e crescimento. São gente que quer mudar e que toma a mudança nas suas mãos. São nativos digitais, mas conectam-se facilmente com valores e saberes tradicionais, os únicos que parecem não sair de moda e garantirem um aporte de segurança e fidelização. Concebem o futuro com engenho tecnológico, mas com base nos saberes artesanais que lhes permitem criar as suas próprias pranchas de surf, nascidas de garrafas de plástico deitados ao mar. Há, de facto, para quem a sabe apreciar, poesia neste ciclo de resgate de plástico do mar com o qual surfam as ondas. Se esta não é uma onda perfeita…

Recriutilizamos, sim senhor!

Também por aqui, na oficina Light It Be, recriutilizamos, desde madeira sem préstimo a peças mecânicas que acabariam em queimadas, aterros ou fundições, as quais aliamos, montamos e, por fim, iluminamos. Uma pequena, mas honesta contribuição neste ciclo de renovação que transforma desperdício em candeeiros de madeira natural. Peças únicas e irrepetíveis, também elas nascidas do upcycling e de materiais que dificilmente se encontrariam na vida, exceto, talvez, num qualquer aterro municipal, jamais nas nossas casas, num improvisado salão de festas, iluminado ao som da floresta e da nossa música favorita. Sim, upcycling e Light It Be são sinónimos de ‘recriutilizar’, ‘reusar’ e ‘reimaginar’, e estes são mais três ‘R’ a somar a todos os nossos outros erres. Com base neles, os objetos alongarão a sua esperança média de vida, as memórias esticarão os seus tentáculos no futuro e tudo poderá permanecer connosco mais tempo do que uma temporada da nossa série favorita. Vale a pena apostar nesse propósito, certo?

Fotos – Light It Be e Pinterest

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