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Nós

As nossas árvores não morrem

Plantámos uma ideia

Por um milhão de razões, um dos desejos mais prementes, logo que nos mudámos para o campo, para uma zona dominada por vinhedos, era o de termos plátanos. São frondosos, verdejantes. Generosos e vaidosos no verão, com a sua copa de sombra refrescante. Humildes e discretos no inverno, quando prescindem de ornamentos. Pois eles chegaram. Eram apenas três finas hastes erguidas aos céus. Finos e delicados, mal deixavam adivinhar o que de lá viria. Deixámo-los crescer livre e selvaticamente – há lá melhor maneira de se ser árvore –, e eles surpreendiam-nos a cada dia. Sempre mais incríveis e frondosos.

Ela cresceu

Em poucos anos, eram soberbas árvores, abrigo de aves de passagem, já que as da casa sabem bem que não são de fiar no tempo do frio, altura em que se despem de vaidades e se limitam ao grau zero do mundo das árvores: apenas raiz, tronco e ramos. Demorámos a perceber, porque éramos mais felizes fazendo de conta que não víamos, que os nossos plátanos se agigantavam no ar, arranhando os céus e causando temores em tempo de vendaval, quando se assemelhavam a temerárias velas ao vento.

Ela agigantou-se

Fingíamos acreditar que nada as derrubaria, por já não nos imaginarmos sem elas, e elas lá aproveitavam a nossa ‘distração’ para se erguerem mais e mais. Tanto, que as suas raízes, fortes como ondas, começaram a levar à sua frente tudo aquilo que encontravam. Os sinais eram claros e, um dia, o qual adiámos para lá do desejado, a decisão era tomada. Tínhamos de cortar os nossos plátanos.

Ela desafiou-nos

Eram de tal modo altos que foi preciso coragem e acrobacias e um jardineiro com alma de alpinista. Arnês maquinaria pesada e… despedimo-nos das nossas árvores mais frondosas. Uma a uma. Perguntaram-nos, no final, se queríamos ficar com a madeira. Que era boa para a lareira, disseram-nos. Que sempre era uma forma de as mantermos mais um pouco. Ficámos com elas, pois claro. Cortadas e empilhadas, como peças de um puzzle numa caixa, com a enormíssima diferença de que sabíamos de cor que imagem resultaria se fosse possível montá-las de novo e a certeza de que essa era agora uma impossibilidade.

O início do desafio

Cada tronco foi empilhado com engenho e graça no local destinado à lenha, seu mais provável destino. Um gigantesco cubo com troncos atravessados e uma impressionante calibragem de tamanhos e formatos. Nunca tivemos verdadeira coragem para usar os nossos plátanos para nos aquecermos no inverno, por mais nobreza que víssemos neste último gesto de atenção. Um dia, ao olhar para aquela instalação de madeira, autêntica obra de arte, ocorreu-nos – ou deveríamos dizer: iluminou-se em nós – uma ideia magnífica. E se depois da sombra, viesse a luz? E se cada tronco, magnífico traçado da Natureza, fosse agora veículo de luz? E se conseguíssemos – bem para lá da nossa memória, onde são eternas – que as nossas árvores jamais morressem? E se as transformássemos noutra coisa? E se de cada tronco fizéssemos um candeeiro? Uma peça escultural que deixasse transparecer a beleza e nobreza dos nossos plátanos? Um propósito de inegável poética, que desde logo ganhou raízes. Pois eles aqui estão, os nossos candeeiros. Uma espécie de celebração da madeira. Quase a reciclagem de uma memória.

Porque as nossas árvores não morrem. Reinventam-se.

 

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