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Industrial – Diretamente da linha de… coragem

A questão espacial

O apelativo estilo industrial depende, mais do que de uma estética específica de reaproveitamento de objetos, mecanismos e até equipamentos reabilitados de antigas fábricas – que novas tecnologias tornaram obsoletas –, o estilo industrial, dizíamos, depende de espaço. De muito espaço. De espaço amplo e desimpedido. Nascido e nutrido no berço dos lofts nova-iorquinos – amplas áreas isentas de paredes interiores, que devem a sua existência ao abandono de armazéns, oficinas e amplos edifícios que abrigavam fábricas ou escritórios –, o estilo industrial deve a sua existência, precisamente, à disponibilização desses espaços para habitação, os quais generosamente se adaptavam às necessidades logísticas e boémias de artistas. Um dos mais emblemáticos desses estúdios artísticos é o mítico The Factory, de Andy Warhol, que testemunhou alguns dos mais mediáticos momentos da Pop Art, desde que nasceu no início da década de 60 do século passado.

Loft me alone

Parte destas estruturas fabris, desenhadas para abrigarem equipamentos industriais de grande porte, eram concebidas para serem resistentes, sólidas e seguras. Dispensavam acabamentos e detalhes arquitetónicos, ou esmeros de engenharia tidos como primordiais noutros tipos de construção, mais ainda quando o projeto se destinava à habitação familiar. Pensados ainda para permitirem a livre e ampla circulação de inúmeros operários, apresentavam-se, maioritariamente, como amplos armazéns, despojados de acessórios e de face rude e brutalista.

Pé direito agigantado, ausência ou economia de divisórias interiores, vigas de aço a descoberto, colunas de ferro e outros elementos estruturais, como condutas de ar ou canalizações expostas sem dramas ou pudores, paredes de betão armado a nu, ou tijolo e tijolo-burro sem ‘maquilhagem’, ou seja, sem qualquer revestimento com vista ao seu embelezamento, fazem parte dos traços básicos destas áreas, que, uma vez vocacionadas para a habitação, cedo ganharam o nome de loft. Começaram por ser espaços híbridos, multifuncionais, atelier e casa de artistas em simultâneo.

Por uma renda acessível, podia adquirir-se um espaço pouco acolhedor, frio e impessoal, mas amplo, onde era possível viver, criar e até exibir. Isso era atraente para a fauna artística na sofisticada Manhattan e logo se tornou moda. Um trend que ainda hoje faz das suas e que mantém intacto um traço original: a robustez e solidez da construção, em detrimento da delicadeza de acabamentos. Num loft tudo foi feito para durar e resistir, para segurar e proteger, para assegurar áreas de circulação, para resistir ao brutal desgaste de uma linha de montagem e para fazer frente aos elementos exteriores. Tudo isso é visível e inspirador nestes espaços, até porque um loft com alma tem data de nascimento como certidão de originalidade. Ele já abrigou, de facto, outras gentes, outros afazeres, outras preocupações e vocações. Não se constrói um loft de origem, ele tem sempre de começar por ser qualquer outra coisa. A patine do tempo, a alma fabril, o toque industrial de um edifício só lá estão verdadeiramente se tudo isso foi verdade dentro daquelas paredes. Não se imita um loft. Ou se é ou não se é um loft. Aqui, como em tudo na vida, não vale a pena mentir, porque o espírito dos edifícios é a melhor peneira da verdade.

Espírito proletário com alma de artista

O industrial, que começou por cumprir propósitos e necessidades fabris, por acolher o proletariado e acompanhar linhas de produção e de montagem, cedo se impôs como uma estética imponente e apetecível, mais ainda quando passou a estar associado a artistas e a passear de braço dado com movimentos de vanguarda, influenciadores de modas e trendsetters por natureza. A estas tristes e rudes paredes, que os novos habitantes respeitaram tal como elas eram sem exigências de reboco menos ainda de estuque, ou apenas ignoraram, somaram-se obras de arte, estilos de vida boémios e criativos, gente alternativa, geradora de uma cultura emergente e tudo isso gerou glamour e apetite pelos lofts, que logo abandonaram as suas rendas baratas e se tornaram, eles próprios, objeto de desejo dos mais endinheirados.

Puro e duro

Em traços gerais, a estética fabril ou industrial elogia a nobreza e resistência dos materiais rudes que possibilitaram a sua atividade e a sua resistência às temperaturas dos fornos, aos embates e ao desgaste do uso e do tempo. Betão, tijolo, cimento e ferro exibem-se com o vigor estrutural das suas capacidades e das suas funções. São mesmo uma presença tranquilizadora. Graças à força e robustez das vigas, pilares e outras estruturas extravagantemente exibidas, atesta-se a solidez da construção e a durabilidade da obra. Elementos e perceções que se exigem também aos objetos que ornamentam estes espaços abertos e amplos. Uma certa dimensão é-lhes exigida, já que, na imensidão de uma área, o requisito vai para mobiliário grande e funcional, ao invés de uma multitude de pequenas peças que passariam despercebidas ou que acabariam por se impor apenas como ‘ruído’ de fundo, como poluição visual.

Além de tamanho e escala, para equilibrar a proporcionalidade, as peças devem conseguir replicar materiais, tonalidades e o mesmo tipo de criatividade manufatureira que permitiu que fábricas se transformassem em casas de habitação. Ferro, ainda que oxidado, aço, a acusar o desgaste, madeira rude ou devoluta, pregos, parafusos, porcas, roscas e rebites à vista, peças oriundas de equipamentos originais reabilitados, chapa, latão, cobre e cerâmicas de acabamento tosco, rodízios e rodas dentadas reaproveitados… Mais ou menos estilizado, é isto que ganha sentido num loft, ou apenas num apartamento cuja dimensão e escalara da área remetam para a natureza de um loft. Melhor ainda se for um galpão ou armazém original, agora revisto e atualizado a necessitar de decoração. Cadeiras desemparelhadas, peças vintage, luminárias industriais, canalizações, instalação elétrica e condutas de ar condicionado a ornamentar tetos e paredes – que fácil se torna a sua manutenção! – são absorvidos como elementos decorativos e não como ‘empecilhos’ estruturais que se devam ocultar.

Tudo é genuíno, tudo tem valor. Melhor ainda, tudo é valorizado numa lógica que favorece a durabilidade e resistência à delicadeza do acabamento ou da estética final. Presta-se homenagem ao velho, junta-se-lhe o novo, misturam-se ideias e conceitos, cria-se como na tela de um pintor, monta-se e sobrepõe-se como no atelier de um escultor, harmonizam-se opostos e somam-se novidades, como sejam plantas de grande porte, capazes de fazer frente ao pé direito fabril. Brinca-se com a luz, a funcional e a artística, para dar graça e drama aos vários palcos de um espaço que é único, mas que tem diferentes vocações e apetites. Capricha-se nos têxteis, para um aporte de conforto, tão necessário em espaços gigantes, pois que facilmente se tornam inóspitos e impessoais. Mas também aqui, veludo e serapilheira se irmanam sem tolas hierarquias. Tudo funciona, desde que tudo tenha uma função clara e um propósito específico, mesmo que seja meramente ornamental, como as tais plantas de que falamos la atrás. Quanto aos tons, é fácil de perceber que eles espelham os das matérias da estrutura, uma vez que a decoração privilegia os mesmos materiais. Pode, todavia, mais do que isso, deve mesmo juntar notas pessoas, restos de viagens, princípios de originalidade e personalização. Uma cor garrida que destoe e da qual goste, um tecido fora do baralho, como a seda, o cetim ou o já referido veludo. Dê-lhe um toque de boémia e outro tanto de artístico e obtenha efeitos feéricos. Pessoalize-o. Batize-o com as suas preferências. Torne-o mais seu. Mais do que isso, torne-o só seu, pois assim deve ser para que sintamos a casa como verdadeiramente nossa. Se possível, crie as suas próprias peças, ou peça ajuda a artesãos para criarem aquilo que imaginou. Tudo é possível, até luzes que saídas da sombra das árvores, como os candeeiros Light It Be.

Também não faz mal que…

As paredes estejam descascadas, que o tijolo esteja gasto, que o ferro e a chapa há muito não pareçam novos. A madeira pode não ser polida, o abajur de metal de um candeeiro ter uma mossa com mais de 30 décadas e os braços de cabedal do sofá mais confortável da casa estarem puídos. Nesta estética, a linguagem solta e com memória de cada objeto contribui para o espírito comum, para o resultado final e cada detalhe, cada falha ou ‘defeito’ só lhe acrescenta graça e personalidade, como aquelas que aceitamos nos nossos Light It Be, candeeiros de madeira natural cheios de contingências e com uma impressão digital muito própria. Acima de tudo, também não faz mal que se divirta e que aceite o uso, o desgaste e o passado de cada coisa. Tudo isso são histórias por contar que falam muito de si e da forma como aceita os outros e o mundo. Da sua capacidade de aceitar o outro e o diferente, de perceber o belo quando outros veem o mero banal. Da sua empatia e ‘boa onda’, da sua mundividência e da sua alegria de viver. O estilo industrial vinga em casas vividas e convividas, onde se reúnem amigos e ideias, gargalhadas e projetos. Ele promove ambientes criativos e atmosferas inspiradoras, percorridos por peças manufaturadas, invenções e protótipos de quem gosta de fazer acontecer e se dedica com alma e coração àquele espaço a que chamamos casa, mesmo quando ele já foi fábrica. E isso também não faz mal. Só faz bem.

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